quarta-feira, 28 de abril de 2010

Utopia e sua significação

No início da modernidade Thomas Morus inventou o termo “utopia” para criar sua concepção do termo, sendo ela retirada de duas palavras gregas: eutopia, que significaria um “lugar bom”, e outopia, com o significado de “em lugar nenhum”. Sua sociedade perfeita existia na ilha de Utopia em algum lugar ao ocidente. Na imaginação de Morus, o lugar ao ocidente, estava relacionado a descobertas de novos mundos (e suas tranformações, como o advento do mercantilismo). Tratava-se de um lugar perfeito onde não existiam os problemas por que passava a Inglaterra de Morus ( sua elaboração era uma forte crítica a sociedade da qual ele fazia parte). Segundo Zygmunt Bauman, para que a utopia nasça, é preciso duas condições. A primeira é a forte sensação (ainda que difusa e inarticulada) de que o mundo não está funcionando adequadamente e deve ter seus fundamentos revistos para que se reajuste. A segunda condição é a existência de uma confiança no potencial humano à altura da tarefa de reformar o mundo, a crença de que "nós, seres humanos, podemos fazê-lo", crença esta articulada com a racionalidade capaz de perceber o que está errado com o mundo, saber o que precisa ser modificado, quais são os pontos problemáticos, e ter força e coragem para extirpá-los. Em suma, potencializar a força do mundo para o atendimento das necessidades humanas existentes ou que possam vir a existir.

Bauman propõe uma reflexão sobre o imaginário da utopia no passado e o que ela ainda representa no mundo contemporâneo. Para tal ele se utiliza de metáforas de três personagens: o guarda-caça, o jardineiro e o caçador. O guarda-caça refere-se a uma postura pré-moderna em relação ao mundo. Antes da modernidade o guarda-caça baseava-se na crença de que o mundo não passava de uma cadeia divina de seres em que cada criatura tinha seu lugar útil e legítimo, mesmo que a capacidade mental humana fosse demasiadamente limitada para compreender a sabedoria, a harmonia e o caráter ordenado do projeto divino. A do jardineiro está mais relacionada a uma cosmovisão identificada com a modernidade, século XVI. O jardineiro não assume que não haveria ordem no mundo, mas que ela depende da constante atenção e esforço de cada um. Os jardineiros sabem bem que tipos de plantas devem e não devem crescer e que tudo está sob seus cuidados. Ele idealiza projetos que resultem em melhorias futuras. Já a do caçador se identifica com o tempo de incerteza que vivemos na contemporaneidade. A principal tarefa do caçador é defender os terrenos de sua ação de toda e qualquer interferência humana, a fim de defender e preservar, por assim dizer, o “equilíbrio natural”. A ação do caçador se sustenta na crença de que o mundo é um sistema divino em que cada criatura tem seu lugar legítimo e funcional. Portanto pode-se gastar os recursos porque estes são autorenováveis. Segundo Bauman, estamos vivendo hoje como caçadores, nos preocupando apenas conosco (o que se chama de “individualização”). Sendo necessário que tentemos nos espelharmos em jardineiros para que possamos modificar nossas ações. Portanto as pessoas com “consciência ecológica” servem como alerta para todos nós porque se a utopia está chegando ao fim é porque o caçador está assumindo todas as posições.

A ideia de progresso foi transferida da ideia de melhoria partilhada para a de sobrevivência do indivíduo. O progresso é pensado não mais a partir do contexto de um desejo de corrida para a frente, mas em conexão com o esforço desesperado para se manter na corrida. O segredo é se manter no ritmo com as ondas e isso é algo que choca as identidades pois para acompanhar a velocidade das mudanças é necessário que se abra mão dos valores próprios em favor da obtenção de novos valores postos pela sociedade. A sociedade atual é marcada pelo medo, pela insegurança, causando vítimas. Nos tempos em que vivemos, a palavra utopia passou a ser relacionada com o fantasioso, fantástico, irrealista, irracional. Bauman coloca que a utopia hoje está relacionada ao mundo do consumo, à competitividade típica dos caçadores que somos e é associada a nome de cosméticos, agencias e etc.É preciso que haja uma conscientização humana, que voltemos nossa ambição individual para o aspecto coletivo, no sentido de nos beneficiarmos em comunhão com o próximo – devemos lutar contra nosso próprio ego em nome do bem comum. Que percebamos o progresso como um projeto de alteridade onde seja possível pensarmos em nós e no próximo. Isso seria, para Bauman, utopia.

(Mônica Valéria)

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