Mônica Valéria**
Tatiana Santos***
Resumo
Este trabalho tem por objetivo discutir o bullying, enquanto manifestação de violência, e suas consequências tanto para o ambiente escolar quanto para o ambiente social e doméstico. Considerando a realidade escolar atual e seus desafios, refletimos sobre o problema da violência na escola e o papel do professor diante desses novos conflitos. Partimos das discussões realizadas em sala de aula e de textos diversos para analisarmos como se constitui o universo da violência no contexto da escola e como o bullying vem se tornando cada vez mais presente na sociedade.
Palavras-chave: Bullying. Violência. Ambiente escolar. Professor
Uma sociedade pós-moderna com preceitos cristalizados no contexto escolar.
Tocar no assunto violência é permear por largos horizontes. Historicizar tal tema é perceber que o mesmo é um processo que acompanha a humanidade gradativamente e tem se intensificado cada vez mais nos últimos tempos
A origem da violência humana tem sido estudada por muitos sociólogos e historiadores, que vêem na escassez de bens e fonte maior de conflito entre os homens. Para esse estudioso, entre os quais estão Hobbes, Rousseau, Marx e Engels, a origem dos conflitos e da violência remonta às organizações humanas mais primitivas.
(Costa 1997, p. 283),
Nesse universo da violência e suas diversas manifestações, analisamos em especial o bullying e como este se constitui enquanto algo agressivo e negativo, principalmente no ambiente escolar.
O Bullying é um tipo de violência que se disfarça na forma de “brincadeira”, manifestando-se indiretamente e causando constrangimentos às vítimas e por isso foi considerado durante muito tempo inofensivo. Mas ultimamente este assunto tem ganhado bastante relevância e passou a ser percebido como algo que pode acarretar sérias conseqüências ao desenvolvimento psíquico dos alunos, gerando desde queda na auto-estima até, em casos mais extremos, o suicídio. Portanto não deve ser encarado como brincadeira de criança. Utilizamos como ponto de partida para essa discussão a autora Sônia Maria de Souza Pereira em seu texto “Bullying e suas implicações no ambiente escolar”. A autora cita Fante (2005) para dizer que o bullying tem grande poder destrutivo, ferindo a “alma”, dessa forma ele afeta diretamente o psicológico da pessoa, causando danos que podem ser irreparáveis. Abordamos aqui o bullying no ambiente escolar, entretanto ele não acontece apenas na escola, mas em todos os ambientes onde há relações interpessoais: escola, ambiente de trabalho, família, igreja, tribos, estabelecimentos comerciais, hospitais e etc.
O que se entende por bullying são atitudes agressivas - físicas ou psicológicas - intencionais e repetidas praticadas por um ou mais alunos contra outro como: chutar, empurrar, apelidar, discriminar e excluir, que ocorrem entre colegas sem motivação evidente e repetidas vezes. Quando um grupo de alunos ou um aluno com mais força vitimiza outro que não consegue encontrar um modo eficaz para se defender. Os estudantes que são alvos de bullying sofrem esse tipo de agressão “sistematicamente”, explica o médico Aramis Lopes Neto, coordenador do primeiro estudo feito no Brasil a respeito desse assunto “Diga não ao bullying: Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes”, realizado pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia). Segundo Aramis, “para os alvos de bullying, as conseqüências podem ser depressão, angústia, baixa auto-estima, estresse, absentismo ou evasão escolar, atitudes de autoflagelação e suicídio, enquanto os autores dessa prática podem adotar comportamentos de risco, atitudes delinqüentes ou criminosas e acabar tornando-se adultos violentos”. De acordo com Aramis, o bullying apresenta caráter repetitivo e intencional, sem que haja motivos aparentes, demonstrando uma relação desigual de poder, causando dor e humilhação.
“Para o agressor, os atos de bullying são divertidos porque humilham a pessoa vitimada (...). O agressor se sente bem, pois para sua turma ele é “o poderoso”.” (PEREIRA, 2009, p. 32).
Na maioria das vezes a vítima aceita todo o seu sofrimento sem dizer nada a ninguém, porém se transforma em uma pessoa triste, constantemente deprimida e sem perspectivas de lutar pelos seus direitos - nesse caso, ela poderá até optar pelo suicídio. Talvez guarde essa mágoa durante anos e de repente, em um momento de explosão, invada sua escola atire nos colegas e em quem atravessar seu caminho, passando da condição de vítima para agressor. Pode ser também que a vítima não consiga reproduzir seus maus tratos ao seu agressor, mas o fará assim que encontrar uma pessoa mais fraca do que ela, estabelecendo assim o tão temido círculo vicioso do Bullying.
É importante ressaltar que o Bullying, não é praticado apenas por alunos e entre alunos. Conforme foi dito anteriormente, ele se traduz em todas as relações desiguais de poder em que um dos agentes sejam ridicularizados ou sofram qualquer tipo de agressão. Portanto, no ambiente escolar, pode acontecer também entre alunos e professores - inclusive alguns alunos, além de praticar agressões físicas e verbais aos seus professores na escola - criam perfis em sites de relacionamentos visando ridicularizá-los ainda mais.
A partir do momento em que o Bullying começa a ser praticado gera situações de violência que podem se estender por toda a sociedade. É necessário que todos os envolvidos no processo educacional estejam atentos a este vilão que permeia a educação do século XXI e elaborem planos de ação em que valores como o respeito, amor, companheirismo e cidadania sejam constantemente abordados. Consequentemente os ambientes escolares que investirem nesses valores tão esquecidos em tempos atuais, estarão contribuindo para que a prática do Bullying venha a se extinguir de nossas escolas.
Diante disso, nota-se que a criança ou adolescentes que presencia a violência tem mais chances de absorvê-la, tornando-se parte daquele mundo violento, real à sua convivência por fazer parte do seu convívio tanto familiar quanto comunitário, o mesmo acaba seguindo uma postura igual, na maioria das vezes, tornando-se produto da violência que o cerca.
No Estado da Paraíba os debates de eixos temáticos como direitos humanos, solidariedade, o saber falar e ouvir, alteridade, e a questão de identidade vêm tomando força, em especial no município de Campina Grande, por ser uma cidade universitária entende-se que deva discutir com mais afinco todas essas questões problematizadoras, buscando soluções apaziguadoras.
Por outro lado, essas agressões são evidenciadas como um fenômeno real que recrudesce com a miséria, desigualdades sociais e também com a falta de oportunidades aos jovens, todavia não deve ser entendido como de ordem socioeconômico, “mas cultural e psicossocial”, para que assim isso não passe a ser uma justificativa de ferir e magoar o individuo. Também é pertinente ressaltar a importância da formação inicial e continuada do professor para que ele saiba como agir em determinadas situações. Mas o fator determinante é a ação conjunta entre o psicólogo, o professor, o assistente social e a família do aluno pois a realidade escolar do aluno não pode ser dissociada do seu cotidiano. Para quem é vítima de algum desses tipos de humilhação, a saída é “se abrir”, ou seja, procurar ajuda, começando pelos próprios pais. A família deve estar atenta para o que acontece na escola, ao que se passa no ambiente escolar do seu filho:
“Portanto, sendo a família umas das principais instituições de educação, cabe a ela investir nos jovens, incumbindo-lhes o respeito ao próximo e a não violência.” (PEREIRA, 2009, p. 53)
E quem tem um filho passando por esse problema precisa mostrar-se disponível para ouvi-lo. Nunca se deve aconselhá-lo a revidar a agressão; mas, sim, esclarecer que ele não é culpado pelo que está acontecendo. Também é fundamental entrar em contato com a escola. É imprescindível a escola estar atenta a reconhecer os casos de violência, assim “preparar” seu efetivo, a exemplo ter um programa preventivo anti bullying, mesmo encontrando empecilhos para a concretização do mesmo.
Talvez um dos pontos que o educador deveria focar é na conscientização sobre os diversos tipos de identidades. Dentre outras temáticas essa deve ser prioridade no programa da instituição e não só do professor. A questão de identidade é muito forte tendo um papel fundamental no desenvolvimento do individuo e na educação, sobre isso, Stuart Hall diz que a identidade:
“não pode mais ser estudada como uma variável sem importância, secundária ou dependente em relação ao que faz o mundo mover-se; tem de ser vista como algo fundamental, constitutivo, determinando tanto a forma como o caráter deste movimento, bem como sua vida interior”. (Hall,1997, p. 23)
Então uma identidade bem firmada é o passaporte para uma vida segura e cheia de idéias concreta, mas isso é uma construção que só o cotidiano ajuda a “inventar”, assim ela constitui um passaporte para o adulto aceitar e tolerar o outro e entender o ambiente que está inserido. Ela deve ser sim analisada sempre, pois é uma discussão que se insere em qualquer contexto, além que muito rica sempre com ponto inovador, o educador deve estar atento a essas inovações e buscar meios para fundamentar e saber como passar isso para os educando de maneira simples não que leve a uma reflexão mais ampla de tais atos. Enquanto educadores, devemos estar aberto às várias possibilidades, às transformações culturais existentes na sociedade e perceber que novas significações vão sendo atribuídas com o passar do tempo, assim como as representações vão sendo ressignificadas.
“(...) à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais nos identificar – ao menos temporariamente.” (HALL, 2006, p. 13)
É necessário que haja conscientização por parte do professor de que os alunos são sujeitos pensantes, singulares e que esses sujeitos têm sensibilidades distintas e adquirem novos valores através da troca de experiências. Portanto cabe ao professor fazer sua parte na tentativa de utilizar o conhecimento em favor de uma educação efetiva para que os alunos reflitam sobre seus atos e percebam a importância do respeito, enquanto atividade recíproca.
Uma identidade bem construída é passaporte para uma vida segura e cheia de idéias concretas, mais isso é uma construção que só o cotidiano ajuda a “inventar”, uma identidade bem firmada serve de identificação para o adulto, para ele aceitar e tolerar o outro e entender o ambiente que está inserido e de forma alguma ferir o direito do outro. A nossa realidade é complexa e distante do que almejamos, mas depende de cada um de nós buscarmos viver da melhor forma possível, respeitando o lugar do outro.
As marcas deixadas pelo bullying podem repercutir para o resto da vida das vítimas, adentrando duas identidades e fixando terror em suas vidas. A internet se tornou meio de propagação dessa violência, mas também atua como veiculo de informação e conscientização através de sites de esclarecimentos, onde é discutido o bullying e suas causas e consequencias para a sociedade. Retiramos de alguns sites informativos, que em muito têm contribuído para alertar sobre o perigo do bullying, alguns depoimentos de familiares, amigos e até das próprias vitimas do bullying:
Depoimentos sobre o bullying
“Será que seremos vitimas pra sempre?
Refleti muito antes de escrever esse tópico, porque acho delicado o assunto, mas necessário. Eu observo que muitas pessoas aqui passaram pelo que passei e isso ainda as machuca consideravelmente, como durante anos me machucou. Porem, uma frase de Sartre serviu como vértice para uma nova direção: Não importa o que o mundo faz com você, o que importa é o que você faz com que o mundo faz a você! E essa a pergunta que levanto aqui: Se um dia sairemos da postura da tristeza e do desabafo e passarmos a assumir a historia do Bullying em nossas vidas, mas nos recusarmos a carregar o rotulo. Sim, hoje eu tenho 30 anos e sofri bullying, mas me recuso a carregar esse rotulo. Eu sou eu, isso fez parte da minha historia, mas eu não terminei nela. As coisas que realizo em minha vida são tão maiores, que eu sei que a galerinha que fez isso comigo não chegaram tão longe n vida como eu cheguei.
Essa é uma mensagem de esperança. Desejo que todos como eu, arrisquem a serem mais e não deixar que esse acontecimento os rotule e direcione a vida de vocês. Desejo que vocês sejam maiores. Mas pra isso é necessário um primeiro triunfo, que é o triunfo sobre si mesmo. Levantem a cabeça e não sintam vergonha de vocês. Não se isolem dos outros, não se deixem intimidar. Pensem em pessoas que sofreram coisas piores na vida e seguiram em frente. Eu sei que Bullying traz sérios problemas psicológicos, mas infelizmente ainda somos nos quem resolvemos se vamos continuar vivendo essa historia e deixando que ela nos influencie ou se vamos nos permitir construir uma outra.
Bjos a todos e espero que compreendam o que quero dizer. Não importa o que a galerinha pop pensa de voce. O que eles vão ser daqui há 20 anos? A maioria ninguém como ninguém, nesse mundo de ninguém.” (Anônimo, retirado da comunidade no orkut “Bullying, as marcas ficam”)
“Sim, eu sempre fui vítima de bullying na escola e já fui vítima na internet também. Mas Um dia eu espero que esse canalhas, filhos da **** aprendam uma lição e eles nunca mais vão fazer isso!!!” (Renata – Campina Grande- PB/ 01/01/2010)
“Minha sobrinha de 5 anos está na pré-escola, sofre com bullying, a outra coleguinha já foi identificada, mas a professora sabe mas não fez nada para coibir essas agressões, minha sobrinha tem baixa auto-estima com leve depressão, preciso de ajuda como chegar na escola sem pular hierarquia e fazer uma reclamação, e quais os orgãos competentes posso estar procurando para comunicar que este tipo de agressão possa parar, por favor entre em contato por e-mail, está sendo difícil ver a minha sobrinha sofrer em silencio. Agradeço desde já.Obrigada.” (Dênia - Cubatão/SP / 12/11/2009)
“Desde o ano passado meu filho reclamava da diretora da escola dizendo que ela fazia todos os outros alunos rirem dele, entre outras coisas. Ano passado ele tinha 4/5 anos, como estava numa mudança de professora, pois passou do jardim2 para o 3, achei que o seu mal comportamento na escola, inclusive suas queixas contra a diretora não eram reais. Porém, nesse ano, seu comportamento continuou sendo muito ruim, embora ele tenha deixado de falar dos abusos sofridos, chegou até a xingar a diretora e começou a ter medo de ficar sozinho em algum ambiente. Até que no final de agosto recebemos uma ligação anônima dizendo que ele vinha sofrendo maus tratos na escola e que não era de hoje. Fiquei muito mal, deprimida e me sentindo a pior mãe do mundo por não ter acreditado nele! Agora ele está estudando em outra escola, começou a frequentar a psicóloga indicada pela nova escola. Gostaria de ajuda para saber o que fazer daqui pra frente.”( Mirian - Rio de Janeiro/RJ / 30/09/2009)
“Tenho uma amiga que já sofreu o bullyng e acho q esse assunto devia ser mais abordado nas escolas onde ocorre mais desses casos” (Taiane Tencatti – João Pessoa PB 05/10/2009)
Dessa forma entendemos que é extremamente importante que se invista nas campanhas contra a violência em todos os sentidos, desde a doméstica que ainda é muito presente na sociedade, até a escolar, para que tenhamos uma sociedade mais harmoniosa, onde haja respeito à alteridade. O bullying é um problema de todos nós.
Referência Bibliográfica:
PEREIRA, Sônia Maria de Souza.Bullying e suas implicações no ambiente escolar. São Paulo: Paulus, 2009, p. 29-61
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós- modernidade. Trad. Tomáz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP &A. 1997. 7ª ed. ou reimpressão
http://www.brasilescola.com/sociologia/bullying.htm
http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI16129-15151,00.html
http://www.mp.pb.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=246%3Amp-debate-bullying-com-diretores-de-escolas-de-campina-grande&catid=44%3Ainfancia&Itemid=69
* Atividade exigida na disciplina de Estágio Supervisionado I, ministrada pela professora Patricia Aragão no ano de 2009.2.
** Aluna graduanda do curso de História na UEPB. E-mail: valeriamonica88@hotmail.com
***Aluna graduanda do curso de História na UEPB. E-mail: taty1.cg@hotmail.com